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Graham fala sobre sua saída
   "Eu não queria ser um profissional de jeito nenhum", diz Graham. "Profissionalismo é uma completa mentira". Por 12 anos membro do Blur, Graham Coxon foi o popstar acidental, "o estranho", o lado musical oposto das sensibilidades pop de Damon: "Tocando ao vivo, eu exercitava minha raiva contra essa música pop. Eu queria colocá-la em perigo". Com 21 anos, ele realizou seu sonho de quando tinha 9 anos, que era estar numa banda, tocando no 'Top Of The Pops' (programa de TV britânico). "Daí em diante", diz ele, "passei uma década me perguntando qual seria meu próximo sonho. E esse foi o problema. Eu não tinha mais nenhum sonho a não ser um pouco de paz e estabilidade."
   
    E isso era impossível. No seu vigésimo oitavo aniversário, ele agonizava percebendo que ia atingir os 30. "Você acha que será velho, feio. Eu pensava, 'Eu vou fazer 30 anos... não posso ter 30 anos!' Os últimos 5 anos fiquei temendo chegar nos 30. É estranho pra mim agora. E não aceitar isso me causou muita lamentação e frustração. Eu vou fazer 34, que merda! 40. Eu tenho 40 anos! Caralho, tenho 40 anos! Vou viver num trailer e cantar sobre batatas!"
   
    Há alguns anos, no início da decada de 90, antes do Britpop e o sucesso que quase os separaram, os membros do Blur estavam se socando nos EUA. "É muito complicado. Doze anos de todo tipo de coisas acontecendo. Honestidade e comunicação é muito importante se você quer manter um grupo unido e o Blur nunca teve isso. Nunca. Bom, estávamos nos divertindo, né? Mas se tornou trabalho muito rápido. Só isso. Você assina com uma gravadora e se torna trabalho. Quando chegamos a bater uns nos outros, é porque tudo estava se tornando um trabalho horrível, e não era mais divertido. Eu fui um fedelho idiota, basicamente. Mas eu não era o unico lunático alcoólatra no Blur."
   
    P. Muita da culpa pela situação atual é atribuída a seu comportamento "errôneo".
   
    R. Hmm.
   
    P. Mas você foi errôneo antes. E os caras sempre te apoiaram. O que mudou?
   
    R. Acho que eles ficaram mais... sérios sobre o que o Blur era, de uma maneira mais profissional, comercial, e acho que eu não tenho muito respeito pelo profissional e comercial. O Blur e eu mudamos. Nós estavamos sempre mudando mas talvez essa mudança foi muito longe.
   
    No último mes de maio, Graham, sóbrio há anos, ficou em estúdio menos de 2 semanas para gravar o sétimo album do Blur, e foi solicitada uma visita dele ao empresário da banda. "E eu fui dispensado da banda, basicamente."
   
    P. Você foi demitido?
   
    R. Você pode ver isso como sendo demissão. Demissão é uma palavra engraçada. Eu acho que fui... dispensado. Eu fui avisado que eles não me queriam no estúdio. E aquilo foi o fim. Eu pensei: 'Que merda.' Foi um grande choque. Então eu tomei as medidas legais. E estou muito feliz pelo que fiz. Se eu soubesse que era isso que estavam sentindo quando eu estava no estúdio, de jeito nenhum eu estaria lá.
   
    P. Você não sabia que eles se sentiam assim?
   
    R. Não, não sabia. Na ultima vez que falei com eles foi só sorrisos e 'te vejo na segunda'.
   
    P. Mas esses são os caras com quem você cresceu.
   
    R. Sim... sabe... eu não posso dizer muita coisa, com essas coisas legais. Mas você sabe, é a verdade.
   
    P. É inconcebível que eles não falaram com você eles mesmos.
   
    R. Era inconcebível pra mim. Eu preferiria que conversassem. Acho que merecia isso. Mas se é o jeito que eles quiseram lidar comigo, tenho que respeitar.
   
    P. Vai chegar o dia em que vocês vão estar na mesma sala de novo. Você teme isso?
   
    R. Um pouco, pois vai ser embaraçoso. Como estar na sala com três ex-mulheres. Sim, heheh. É verdade! Oh, estou feliz que eles são ex-mulheres (falando afeminadamente). Ex-maridos, na verdade. É um divorcio. Realmente é um divorcio. É a mesma coisa. E todos os nossos filhos estão tipo, 'o que aconteceu com nossos pais?'
   
    P. Você considera os três como sendo seus amigos?
   
    R. Não.
   
    Graham insiste que não teve problemas com Norman Cook. "Não tive nada contra Norman. Deus, eu pensei que fosse apenas ele e o Damon que tivessem tido brigas sobre dance music, mas talvez minha timidez foi confundida com algum tipo de retaliação". Também diz que não teve problema com Gorillaz. "Foi só armado e superfluamente comercial, mas daí eu sou tachado de reacionário."
   
    O novo álbum do Blur, de acordo com ele, é "muito diferente, eclético, coisas tradicionais com muitas idéias novas e de repente você escuta um violão e é fantastico. Heheh! Estou em quatro músicas, mas não sei se elas estarão no album."
   
    Ele está agora ansioso para ver o Blur ao vivo. "Eu nunca vi o Blur ao vivo. Talvez sejam brilhantes sem mim. Não acho que a história acabou pra eles. Eles vão continuar. O lado 'pessoal' é secundário para o que o Blur faz."
   
    P. É tragico, depois de tanto tempo, não ter sequer uma amizade.
   
    R. Bom, eles particularmente não agiram como amigos. Eu não acho que agiram como amigos agiriam. Acho que não achava isso durante anos. É bom de certa maneira que eu não preciso mais fingir nada. Gostar de... certas pessoas. Acho que existia muito fingimento em sermos amigos. Eu lembro do Dave dizendo há alguns anos, 'se nós não fossemos uma banda, não seriamos amigos.' Nós respondemos todos espantados, 'Dave?!?', mas, merda, ele estava certo.
   
    P. Vocês nunca foram amigos? Você chamou Damon de "gêmeo musical".
   
    R. Sim, mas no fim nos nos tornamos parceiros de negócio. Basicamente. E isso é a droga da verdade. É o que o Blur se tornou como banda.
   
    P. E isso que eles são?
   
    R. Eu não vejo como mais podem ser.
   
    P. Eles não precisam do dinheiro.
   
    R. Talvez precisem.
   
    P. Eles não tem nada mais a provar, não?
   
    R. Talvez sim. E eu não acho que eu tenha ainda que provar alguma coisa a alguém. Talvez esse fosse o problema por todo esse tempo.
   
    R. Então você não gosta mais deles?
   
    P. Blur? Eu realmente não sei se eu ainda os conheço. Se tornou muito complicado. Eu acho que, a essa altura, a gente não se conhece mais.
   
    Hoje Graham não tem compromissos, sente o vento da liberdade, dono de seu próprio selo, Transcopic, contente em dizer que "não preciso fazer o que a gravadora me diz pra fazer." Ele comprou uma casa em Kent, para escapar de Camden. Sua auto-consciência é agora gerenciavel. "Eu ainda não consigo lidar com as câmeras apontadas para mim. Mas eu estou melhor. Eu não podia olhar ninguém nos olhos porque eu me achava um merda. Agora eu não me sinto como um merda. Estou realmente feliz. Talvez a última vez que eu tive essa sensação foi quando eu tinha 8 ou 9 anos."

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